Sobre Homero.
Comecei um projeto este ano de resenhar todo livro que eu ler até 2021, com exceção de alguns específicos demais de nichos que podem tranquilamente passar despercebidos. É uma tentativa de desenvolver uma melhor capacidade de síntese e melhor sustentar uma análise do que foi lido, pra ver se não me esqueço. Comecei, então, com o livro do Wright porque foi um dos primeiros livros que li esse ano e, principalmente, o primeiro que gostei o suficiente pra me arriscar numa resenha. Mas agora a questão muda um pouco de figura.
Eu poderia me deter em ecoar a leitura romântica do Christian Werner ou os comentários peculiares do Frederico Lourenço, mas pra quê? Estudos homéricos existem desde que o Ocidente tomou conhecimento desse gigante e material sobre suas obras é o que não falta, tanto acadêmico quanto literário. Não tenho o que adicionar e nem pretendo, sinceramente, o debate já se cristalizou. Não posso, também, fingir um louvor apaixonado pelo “Pai da literatura” com um ardor católico reservado aos santos, à maneira de escolásticos em busca de redenção. Não seria de meu feitio.
O que eu senti lendo Homero, muito mais que louvor pela figura do grande aedo, seus deuses e seus heróis, foi admiração por Hélade e seus helenos. Admiração por um povo que, de uma maneira ou de outra, passou por uma revolução que transformou em absoluto toda sua estrutura de sociedade, economia, cultura e política, e sobreviveu pra contar uma história tão poderosa quanto eles próprios.
A sociedade da qual Homero era descendente (supostamente, pois sua própria existência é questionada), havia protagonizado um colapso estrutural em todas as esferas da atividade social por volta de 1200 a.E.C. A ilha de Creta e as cidades e vilas às margens do Mar Egeu de então faziam parte do mundo micênico, sociedade que surgiu após a conquista/mescla dos minoicos pelos povos heládicos que viviam nas redondezas. Claro que esse é um panorama geral e raso para tratar de povoações humanas centenárias e complexas mas o que importa aqui é que pelo fim do século XII a.E.C a civilização micênica havia sido completamente destruída.
Muito se debateu e muitas são as teorias sobre o quê exatamente provocou o colapso, mas a verdade é que não se sabe ao certo. As poucas evidências sugerem que houve uma sucessão de tragédias que vão desde desastres ambientais, migrações em massa e invasões inimigas. O fato é que as únicas coisas que restaram foram alguns povoados; até mesmo a escrita desapareceu. O povo grego perdeu de vista a centralidade segura do palácio e teve de se reinventar partindo do que tinha: história e esperança. Pelos quatro séculos que se seguiram, a vida se adaptou, como sempre faz.
O mais mágico disso tudo é a capacidade mística e quase mitológica que o homem tem de reinventar seu mundo e a si mesmo. Helenos, que adentraram uma escuridão aterradora como que num piscar de olhos cósmico, voltaram à luz trazendo consigo uma riqueza muito maior que antes, gestando aquilo que viria a ser o espírito do classicismo ocidental, um feto de razão e o abraço à ancestralidade. Não existe Homero sem Hélade, e por maior que seja sua figura, sua grande beleza não está somente no heroísmo divino de seus heróis ou feitos grandiosos de grandes povos, mas no espírito de seu próprio tempo, espírito que conseguiu transcender a temporalidade linear e, enfim, alcançar o kleos.

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