É assim que se grita?
Como é o sonho de uma cigarra? Ela sonha com o cheiro do orvalho de sua árvore? Sente o peso da casca que sustenta suas asas? Se inebria ao som de si mesma em harmonia com toda sua espécie? Algumas espécies passam 17 anos debaixo da terra. Dezessete anos vividos sob a terra, se preparando. Dezessete anos enterrada, sugando seiva e esperando, maturando, esperando, crescendo, ouvindo, respirando, meditando e esperando. Crianças se tornam adultas, sonhos são esquecidos, remodelados, requentados, a vida acontece em seu ritmo inadiável e, enquanto isso, elas aguardam para além do pulo consciência-inconsciência, numa unidade com seu entorno imediato e afastado, ébrias em puro volume, sábias e atentas ao tempo certo. Quando dispontam à superfície, alcançam aquilo que lhes aguardava, que anos ou uma eternidade não as poderia preparar. Desaguam em existências inéditas conquanto previsíveis, e diante da irredutibilidade da vida, em louvor anônimo, cantam. Aliás, gritam, sem ressalvas, tudo o que vêem. Fazem da voz um espelho do mundo e morrem em seus reflexos. Ó, cigarras, nunca vos entendi tanto.
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