Nem a natureza é perfeita.

Sou completamente obcecado pela chave da vida. De uma forma ou de outra, tudo o que eu faço é com o objetivo de encontrar essa chave, uma teoria, conceito, ideia, imagem, pensamento, sensação, sentimento que destrave as portas da percepção. Persegui a filosofia com esse intuito e, sem perceber, a confundi: filosofar é encontra a chave, filosofia se faz em busca da verdade platônica. Daí nasce o perfeccionismo. O desejo de encontrar a resposta perfeita se traduz numa reticência cerimonal na hora de canalizar o Eros: quero escrever mas não posso me lançar até ter o texto perfeito; quero pintar mas não posso até ter o quadro perfeito; quero compor, aprender, estudar, assistir, ler, viver, mas não posso, até ter a vida perfeita. Se você passa a vida buscando por algo que desconhece, você sequer reconheceria se encontrasse? 

não existe perfeição, se me importar com o ideal nunca escreverei uma palavra. tenho que entender que feito é melhor que perfeito, independente de como se acabe. nem a natureza é perfeita, ela arrisca o tempo inteiro com mutações epigenêticas e contingências pura e simplesmente porque sim, porque a vida acontecendo é mais importante, e não existe nada fora dela. em verdade, ou algo é perfeito, ou algo existe. deixe-se experimentar e os frutos do caminho serão para sempre mais proveitosos que qualquer cria de "primazia" poderia gerar enquanto teoriza e não coloca a mão na massa. preocupar-se com qualidade é importante mas não se essa lhe tolhe o próprio objeto a qual a qualidade deveria estar imbuída. que a filosofia não busque o perfeito, mas aja sobre o imperfeito como ferramenta dialética, propósito a qual foi destinada a princípio, e se preocupe em transformar e agir sobre a transformação direcionada pela intuição. como bússola da vida, tal conceito só deve ser pensado parcamente e de tal modo, como um conceito e nada mais. tudo o que existe é o que acontece agora.

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