Choca-se o Ovo da Serpente
Berlin, noite de sábado a 3 de novembro de 1923. Um maço de cigarros custa 4 bilhões de Marcos e quase todos perderam a fé no futuro e no presente. Abel caminha por uma rua escura de volta para a pensão em que mora com seu irmão Max. Ele entra e é recebido por Frau Hemse, que o entrega uma bandeja com alguma comida para levar consigo até o quarto. Abel, mesmo apressado, a toma com gratidão e se detém ao pé da escada. Há uma farta ceia acontecendo na sala, com direito a música e manteiga. Ele sorri. Abel sobe para o quarto e abre a porta. Max está morto, sua cabeça aberta, seu sangue espalhado por toda a parede e sua arma dependurada de sua mão direita.
Max deixa uma carta explicando seus motivos e esclarecendo algumas coisas, mas sua caligrafia é ilegível. O que poderia ter motivo agora se encripta como caso perdido, isolado, vazio e sem sentido, como todas as outras coisas. O absurdo é a nova tendência. Nada funciona direito a não ser o medo.
“O Ovo da Serpente” é um filme surreal, no pior sentido da palavra. Surreal ao colocar em cheque nossa memória do que é História e do que é ficção. Surreal ao nos aproximar de algo que talvez seja mais real que nossa tentativa de pintar a normalidade de democracia. Surreal ao tentar lançar contornos a essa massa amorfa a que chamamos fascismo. Ambientado na Alemanha de Weimar, acompanhamos o norte-americano Abel na semana que sucede o suicídio de seu irmão. Confuso e perdido em uma terra onde não se fala sua língua, onde o temor cresce como vapor nos paralelepípedos, tudo é como um sonho febril, um pesadelo distópico. A tragédia porvir já é anunciada na morte inconsciente a qual todos carregam. Quando se percebe que perdeu-se algo que nem era sabido como possuído, um senso sublime de direção, tenta-se desesperadamente dar sentido ao desespero.
Em um trecho do filme, Abel e Manuela, ex de Max, estão deitados, mas Abel não consegue dormir. “Só consigo pegar no sono se estiver bêbado”, diz enquanto se levanta. “Ah, bem, tem bebida na geladeira… Sabe, eu até gosto de ter febre, você vive com sono, não sabe as horas, dorme e acorda sem saber de nada, de nada.” ela responde enquanto ele acha uma garrafa de Vodka pela metade e toma-a no gargalo para pegar no sono. Tudo tem que escapar. Tudo tem que entorpecer, seja febre, seja álcool. Fugir é a única vida que resta.
Pelo acaso de conhecerem as pessoas certas, ambos são contratadas pela Clínica de Santa Ana. Manuela como maquinista e Abel como arquivista. A clínica funciona em um gigantesco complexo subterrâneo de arquivos diversos, os mais antigos datando do século XV. É um verdadeiro labirinto de memórias, a história de um povo em concreto enterrado, escondido, clandestino. O espírito fascista se desvela nas ruas e gabinetes enquanto corrói as entranhas da nação. Se revela o íntimo evidente: “liberamos as forças produtivas e controlamos as destrutivas, exterminamos o que é inferior e aumentamos o que é útil”, palavras necrológicas bradadas então por um corpo violento de direitistas e hoje por reacionários tacanhos. Ou vice-versa. É ficção não é? Não importa, o ovo já havia se chocado. Ainda que a pequena criatura não tivesse rasgado a translúcida membrana, já estava completamente formada.
No filme, Abel foge com o pingo de coragem que lhe restava e nunca mais é visto. Talvez seja inevitável, talvez o fétido Irmão se esconda atrás da máscara da democracia liberal por vergonha, fetiche ou comodismo como sempre fez. A alma de quem entende adoece por antecipação, perde os sentidos e se cansa, mas não podemos nos esquecer que os verdadeiros doentes são aqueles que lutam pela morte e defendem o signo do arbítrio. Enquanto as serpentes colocarem ovos e os coturnos marcharem pelas avenidas, haverá quem defenda o sonho da sobriedade e da liberdade. O sonho dos justos sempre vale mais que o delírio dos loucos.

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